domingo, 26 de abril de 2020

Xeque!

Eu me lembro que desde criança sempre gostei de jogar xadrez. Meu pai me ensinou, e logicamente vivia deixando eu ganhar para que eu me empolgasse mais com o jogo. Houve uma partida que me lembro muito bem, uma na qual ele não me deixou vencer. Ele ardilosamente me deixou achar que estava vencendo no início, me deixou tomar algumas peças, e então, quando eu menos esperava: "xeque!"
Eu fugia, e logo escutava:
"xeque!"
Eu fugia, me recompunha, e novamente era acuado:
"xeque!"
Em algumas vezes eu apenas ia fugindo, em outras eu tinha que fugir e deixar algumas peças sacrificadas para ele. Logo a minha vantagem de peças se esvaiu. Mais tarde eu estudaria os jogos dos grandes Capablanca, Alekhine e Reti e entenderia que pensar como eu pensava, que o cavalo vale 3, a torre vale 5 e a rainha vale 10 é pura bobagem, típico pensamento "dentro da caixa".
Mas enfim, minha vantagem de peças, tão valorizada por mim, se foi mais rápido do que eu poderia entender o que estava acontecendo.
E "xeque!".
"xeque!"
"xeque!"
Eu não tinha tempo para respirar. Quando eu pensava que ia conseguir inventar alguma saída, e talvez vencer, a realidade se impunha:
"xeque!", ele insistia.
Após algum tempo eu só queria sair dali. Se eu empatasse o jogo já seria uma vitória. O problema é que no xadrez sou péssimo para forçar empates. Especialmente quando estou em desvantagem e precisando empatar, aí que eu não sei mesmo. Obviamente eu perdi logo depois.
Sem fazer um sermão, sem dar conselhos, sem falar nada além de "xeque!" meu pai me ensinou uma valiosa lição. Claro que não aprendi na hora, pois na hora fiquei chateado.
Mas fiquei pensativo.
Até hoje me lembro que não quero jamais perder o controle da situação daquele jeito.
E para estar no controle, é preciso nunca abandonar a iniciativa, e sempre pensar à frente.
Eu aprendi que no xadrez, como em qualquer outra coisa na vida, quem toma a iniciativa tem o controle.
Quem toma a iniciativa consegue levar o oponente para onde quer, e quem leva o oponente para onde quer, tem a vantagem. Claro, tomar iniciativa não significa afobação. Wellington aguardou meses para que Napoleão cometesse um erro, para só então se revelar e entrar em combate. Aníbal optou por passar pelos alpes ao invés de encarar a patrulha romana (típico movimento "fora da caixa"). E Ho Chi Min preparou a ofensiva Tet por anos antes de colocá-la em prática.
Devo ter levado uns 30 xeques naquele jogo. Senti a angústia que é estar fora do controle da situação. Fiz de tudo para me recompor, e nada adiantou. O adversário estava sempre um passo à frente, me destruindo.
Foi a partida que mais aprendi.

O primeiro livro na história que se tem notícia de colocar a mobilidade e a iniciativa como valores maiores do que a força bruta ou uma defesa intransponível foi feito pelo General Sun Tzu. Indico para todos seu livrinho: A Arte da Guerra . É de rápida leitura, bastante objetivo e nos dá idéias muito valiosas que geralmente não temos. É para ser lido e relido, especialmente se você estiver em alguma situação de conflito ou disputa. Nota 10!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

“juros compostos são a força mais poderosa do Universo”. Albert Einstein

Diz a lenda que um rei estava muito triste devido à morte de sua filha. Este rei ofereceu qualquer recompensa, limitada à metade de seu rein...