Talvez o leitor já tenha se sentido como se vivesse em uma selva, tendo que “matar um leão por dia” para sobreviver, alimentar os filhos, e acordar no outro dia, preparado ou não, para ficar de frente com o próximo leão. Tenho uma novidade para você: é exatamente isso! O mundo é um lugar de escassez. Miséria e tirania são a regra na história da humanidade, não a exceção. Existiram pequeníssimos lapsos de tempo com alguma prosperidade e liberdade, e estamos vivendo em um agora. Mas não se engane: é uma selva, sempre foi e sempre será. Não o vejo como cruel. Apenas incrivelmente indiferente. Você pode estar morrendo de fome, se afogando ou chorando pelo seu amor não-correspondido. Ele simplesmente não liga. Ninguém liga. E este é o primeiro pensamento que quero que o leitor tenha em mente: seu sucesso ou fracasso só depende de você. Se você não for atrás de comida, ou não começar a nadar, ou não ligar para seu amor (ou para outra, obviamente), a situação não irá melhorar sozinha.
Por isso, vamos aos fatos: as coisas nunca serão como você quer. Você pode ficar se lamentando e culpando o chefe, o capitalismo, o governo ou seu nervosismo na sua última entrevista. Culpar fatores externos pode te fazer sentir mais confortável, mas não irão alterar a situação.
O sofrimento é a distância entre o que idealizamos ter e o que temos de fato. Pegue um homem doente, e lhe dê saúde. O fato de não ter saúde o incomodava sobremaneira. Este ficará brevemente satisfeito, mas logo estará infeliz pelo fato de não ter uma casa própria. Dê-lhe a casa. Ficará feliz, mas logo estará reclamando da localização, do tamanho, dos vizinhos. O leitor já deve ter entendido a mensagem: a insatisfação é a regra da vida. A resposta dos budistas a este problema da insatisfação eterna do ser humano é simples: já que o sofrimento vem da distância entre o que desejamos e o que temos, não deseje nada! Ora, os budistas devem estar certos, isso realmente deve funcionar. No entanto, desejar ou não desejar não é uma opção. Não posso ver uma Ferrari e dizer: “não, não quero desejar isso.” O que se pode pensar sabiamente é: “veja, eu iria amar ter uma Ferrari. Mas para conseguir uma, o custo seria maior do que o prazer que o carro me daria. Quanto tempo eu teria que trabalhar, poupar, para chegar lá? Não, não vale a pena. Mas se eu quisesse, conseguiria! O ponto mais importante que que quero chegar é que <b>a insatisfação leva à ação.Não ligue pro papo dos budistas de não desejar nada. Viver é desejar melhorar nossa situação, e só age quem está insatisfeito. Quem está satisfeito não age, simplesmente fica parado onde está. Por isso, o mais importante é aprender a canalizar a nossa insatisfação para conseguirmos coisas boas para nós. Quando discorri sobre ir atrás de comida, sair nadando ou ligar para a pessoa amada, era justamente esta a idéia: deixe que os outros reclamem do chefe, da falta de meritocracia na empresa, do pai que não poupou, da burocracia, da receita federal e mãos à obra. Vamos usar a insatisfação como motivação para progredir rumo à Independência Financeira.
"(...) mas até certa soma. Passada ela - é a tristonha e baixa gula do ouro" - Eça de Queiroz
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