segunda-feira, 3 de setembro de 2018

É possível viver de salários?

Um dos posts mais comuns em blogs de finanças procura responder à questão:
"é possível viver de dividendos?"
E eu sempre fiquei intrigado com este tipo de questionamento. O conservadorismo das pessoas cresce e aparece! A mais comum objeção é: "e se a empresa parar de pagar dividendos? E se a empresa quebrar?" aiai, vamos por partes: o que é mais fácil?
A) Uma carteira composta por excelentes empresas, digamos 6, 8 ou 10 empresas muito bem estabelecidas como Bradesco, BB, Ambev, Telefônica, Vale e outras Blue Chips quebrar ou resolver pagar muito menos dividendos ao mesmo tempo;
B) Você perder seu emprego "lá na firma?"
Outro ponto importante, imagine que a Mãe de Todas as Crises + Terrível Guerra Mundial + Revolução Religiosa + Fome + Peste Negra + Pestes Bíblicas + Meteoros nas fábricas da Ambev + Super Crise de Derivativos aconteçam ao mesmo tempo: Metade da sua carteira composta por blue chips tradicionais quebra, e a outra metade resolve ficar 3 anos sem pagar dividendos. Quem está em melhor situação? O capitalista recebedor de dividendos ou o empregado estável?
Ora, ora... se isso acontecer, o capitalista ainda pode ir vendendo 3 a 5% de sua carteira todo ano (claro que a um preço muito baixo) e satisfazer suas necessidades de fluxo de caixa até que as empresas sobreviventes se recuperem e voltem a distribuir seus lucros. No entanto, nosso amigo assalariado já teria há muito tempo perdido seu emprego lá na firma, bem como seu valoroso convênio médico. E então não terá nada. Não importa a crise, quem perde primeiro é o povo assalariado, seja via desemprego, seja via inflação, os capitalistas só perderão após todos perderem antes. Se a crise for profunda com esta que vivemos desde 2008, ainda aparecerá o governo (seja aqui, seja nos USA) para pegar o dinheiro dos impostos e salvar as empresas. Não é justo, eu sei, mas já que o mundo é injusto, que tentemos nos posicionar no lado favorecido.
Como não vivemos numa sociedade de castas e com algum sacrifício é possível virar um capitalista, mesmo que um dos mais pobres entre eles, vamos aproveitar a chance.
Você consegue viver de salário? Você suporta a idéia de que pode chegar uma bela segunda-feira e seu chefe te demitir sem mais nem menos? Você aguenta trabalhar o dia inteiro cumprindo ordens? Então qual seria a sua dificuldade de levar uma vida mais mansa, trabalhando umas 6 horas por semana analisando empresas e conferindo quando chegam seus dividendos, e planejando como gastar? Você conseguiria viver de dividendos. É mais seguro, mais simples e menos arriscado. E ainda teria tempo livre para se dedicar à musica, à literatura, à família, ou seja lá o que você valoriza e aprecia. Existe um preço a pagar para chegar a esta situação. Você deverá investir a maior parte de tudo o que ganha por vários anos a fio, suportar viver num padrão muito abaixo do que poderia e aguentar gente que quer se colocar em situação moralmente superior à sua te chamando de sovina, pão-duro e doido. Ou você paga o preço, ou não paga. Ou tenta fazer diferente da manada, ou faz igual. Você decide.

"A luta pelo dinheiro é santa - porque é, no fundo, a luta pela liberdade (...)”

Talvez o leitor já tenha se sentido como se vivesse em uma selva, tendo que “matar um leão por dia” para sobreviver, alimentar os filhos, e acordar no outro dia, preparado ou não, para ficar de frente com o próximo leão. Tenho uma novidade para você: é exatamente isso! O mundo é um lugar de escassez. Miséria e tirania são a regra na história da humanidade, não a exceção. Existiram pequeníssimos lapsos de tempo com alguma prosperidade e liberdade, e estamos vivendo em um agora. Mas não se engane: é uma selva, sempre foi e sempre será. Não o vejo como cruel. Apenas incrivelmente indiferente. Você pode estar morrendo de fome, se afogando ou chorando pelo seu amor não-correspondido. Ele simplesmente não liga. Ninguém liga. E este é o primeiro pensamento que quero que o leitor tenha em mente: seu sucesso ou fracasso só depende de você. Se você não for atrás de comida, ou não começar a nadar, ou não ligar para seu amor (ou para outra, obviamente), a situação não irá melhorar sozinha.
Por isso, vamos aos fatos: as coisas nunca serão como você quer. Você pode ficar se lamentando e culpando o chefe, o capitalismo, o governo ou seu nervosismo na sua última entrevista. Culpar fatores externos pode te fazer sentir mais confortável, mas não irão alterar a situação.
O sofrimento é a distância entre o que idealizamos ter e o que temos de fato. Pegue um homem doente, e lhe dê saúde. O fato de não ter saúde o incomodava sobremaneira. Este ficará brevemente satisfeito, mas logo estará infeliz pelo fato de não ter uma casa própria. Dê-lhe a casa. Ficará feliz, mas logo estará reclamando da localização, do tamanho, dos vizinhos. O leitor já deve ter entendido a mensagem: a insatisfação é a regra da vida. A resposta dos budistas a este problema da insatisfação eterna do ser humano é simples: já que o sofrimento vem da distância entre o que desejamos e o que temos, não deseje nada! Ora, os budistas devem estar certos, isso realmente deve funcionar. No entanto, desejar ou não desejar não é uma opção. Não posso ver uma Ferrari e dizer: “não, não quero desejar isso.” O que se pode pensar sabiamente é: “veja, eu iria amar ter uma Ferrari. Mas para conseguir uma, o custo seria maior do que o prazer que o carro me daria. Quanto tempo eu teria que trabalhar, poupar, para chegar lá? Não, não vale a pena. Mas se eu quisesse, conseguiria! O ponto mais importante que que quero chegar é que <b>a insatisfação leva à ação.Não ligue pro papo dos budistas de não desejar nada. Viver é desejar melhorar nossa situação, e só age quem está insatisfeito. Quem está satisfeito não age, simplesmente fica parado onde está. Por isso, o mais importante é aprender a canalizar a nossa insatisfação para conseguirmos coisas boas para nós. Quando discorri sobre ir atrás de comida, sair nadando ou ligar para a pessoa amada, era justamente esta a idéia: deixe que os outros reclamem do chefe, da falta de meritocracia na empresa, do pai que não poupou, da burocracia, da receita federal e mãos à obra. Vamos usar a insatisfação como motivação para progredir rumo à Independência Financeira.

"(...) mas até certa soma. Passada ela - é a tristonha e baixa gula do ouro" - Eça de Queiroz

“juros compostos são a força mais poderosa do Universo”. Albert Einstein

Diz a lenda que um rei estava muito triste devido à morte de sua filha. Este rei ofereceu qualquer recompensa, limitada à metade de seu rein...